Questão 18

Física. Dinâmica de rotação e campo de plano infinito.

Conforme mostra a figura, duas roldanas em forma de anel, inicialmente em repouso, estão engrenadas e, ao iniciarem seus movimentos, cada fio é enrolado ou desenrolado à mesma velocidade escalar dos pontos do perímetro de sua respectiva roldana. Nas extremidades dos fios, existem partículas carregadas penduradas na vertical, ambas sujeitas a um campo elétrico gerado por um plano horizontal infinito uniformemente carregado, com um pequeno furo o suficiente para um dos fios passar.

Dados:

  • massas das roldanas: mm e 2m2m;
  • o raio de uma roldana é o dobro do raio da outra;
  • módulo do campo elétrico vertical: EE;
  • cargas das partículas eletrizadas: −Q-Q e +3Q+3Q.

Observações:

  • as massas das partículas são desprezíveis;
  • as massas das roldanas estão uniformemente distribuídas;
  • as roldanas estão sustentadas por hastes presas ao teto nos respectivos centros;
  • as roldanas giram sempre em torno de seus centros e sem atrito;
  • o segmento que liga os dois centros das roldanas é paralelo ao plano carregado.

Ao ser iniciado o movimento das roldanas, pelo princípio da conservação da energia, a aceleração do fio que sustenta a carga positiva é:

  1. 27EQm\dfrac{2}{7}\dfrac{EQ}{m}

  2. 43EQm\dfrac{4}{3}\dfrac{EQ}{m}

    Alternativa correta
  3. 87EQm\dfrac{8}{7}\dfrac{EQ}{m}

  4. 83EQm\dfrac{8}{3}\dfrac{EQ}{m}

  5. 23EQm\dfrac{2}{3}\dfrac{EQ}{m}

Gabarito B

Resolução

O enunciado já indica o caminho: conservação da energia. O trabalho realizado pelas forças elétricas sobre as duas partículas se converte integralmente em energia cinética de rotação das duas roldanas (as partículas têm massa desprezível e as roldanas não transladam, de modo que a gravidade não realiza trabalho). Antes disso, porém, é preciso resolver dois pontos: o vínculo cinemático entre as roldanas e o sentido das duas forças elétricas.

Vínculo cinemático (engrenamento): roldanas engrenadas têm, no ponto de contato, a mesma velocidade escalar de borda. Chamando de vbv_b essa velocidade comum,
vb=ω1 r=ω2 (2r)⇒ω1=2 ω2v_b = \omega_1\,r = \omega_2\,(2r) \Rightarrow \omega_1 = 2\,\omega_2
Como cada fio é enrolado/desenrolado com a velocidade escalar dos pontos do perímetro de sua própria roldana, as duas partículas têm exatamente a mesma velocidade escalar:
v1=ω1r=vbev2=ω2 (2r)=vbv_1 = \omega_1 r = v_b \qquad\text{e}\qquad v_2 = \omega_2\,(2r) = v_b
Portanto v1=v2=vv_1=v_2=v e, derivando, a1=a2=aa_1=a_2=a.

Além disso, o engrenamento faz as roldanas girarem em sentidos opostos. Como o fio da roldana pequena sai pela esquerda e o da roldana grande sai pela direita (veja a figura), as duas partículas descem (ou sobem) juntas, no mesmo sentido.

Sentido das forças elétricas: o campo de um plano infinito uniformemente carregado tem módulo constante EE dos dois lados, mas sentidos opostos em relação ao plano. A carga −Q-Q está acima do plano e a carga +3Q+3Q está abaixo dele (é para isso que serve o furo). Supondo o plano positivo, o campo aponta para cima acima dele e para baixo abaixo dele:
F⃗1=(−Q) E⃗cima⇒forc¸a de moˊdulo QE para baixo\vec{F}_1 = (-Q)\,\vec{E}_{\text{cima}} \Rightarrow \text{força de módulo } QE \text{ para baixo}
F⃗2=(+3Q) E⃗baixo⇒forc¸a de moˊdulo 3QE para baixo\vec{F}_2 = (+3Q)\,\vec{E}_{\text{baixo}} \Rightarrow \text{força de módulo } 3QE \text{ para baixo}
As duas inversões (lado do plano e sinal da carga) se cancelam: as duas forças apontam para o mesmo lado. Como o vínculo também move as duas partículas para o mesmo lado, os dois trabalhos são positivos e somam-se. (Se o plano fosse negativo, tudo se inverteria e o resultado em módulo seria o mesmo.)

Balanço de energia: após um deslocamento dd de cada fio,
Wtotal=QE d+3QE d=4QE dW_{\text{total}} = QE\,d + 3QE\,d = 4QE\,d

As roldanas são anéis (massa na periferia), logo I=MR2I=MR^{2}:
I1=m r2I2=2m (2r)2=8 m r2I_1 = m\,r^{2} \qquad\qquad I_2 = 2m\,(2r)^{2} = 8\,m\,r^{2}

A energia cinética total, escrita em função da velocidade comum vv dos fios (ω1=v/r\omega_1=v/r e ω2=v/2r\omega_2=v/2r), vale
Ec=12I1ω12+12I2ω22=12mr2v2r2+12 8mr2 v24r2=12mv2+mv2=32 m v2E_c = \frac{1}{2}I_1\omega_1^{2}+\frac{1}{2}I_2\omega_2^{2} = \frac{1}{2}m r^{2}\frac{v^{2}}{r^{2}} + \frac{1}{2}\,8m r^{2}\,\frac{v^{2}}{4r^{2}} = \frac{1}{2}mv^{2} + m v^{2} = \frac{3}{2}\,m\,v^{2}

Aplicando o Teorema da Energia Cinética:
4QE d=32 m v2⇒v2=8 QE d3m4QE\,d = \frac{3}{2}\,m\,v^{2} \Rightarrow v^{2} = \frac{8\,QE\,d}{3m}

Obtendo a aceleração: as forças são constantes, logo o movimento dos fios é uniformemente acelerado e vale a Equação de Torricelli v2=2adv^{2}=2ad (parte-se do repouso). Assim,
2ad=8QEd3m⇒  a=43 EQm  2ad = \frac{8QEd}{3m} \Rightarrow \boxed{\;a = \frac{4}{3}\,\frac{EQ}{m}\;}

Dimensionalmente, [EQ]=N[EQ]=\mathrm{N} e [m]=kg[m]=\mathrm{kg}, de modo que EQ/mEQ/m tem unidade de m/s2\mathrm{m/s^{2}}, como deve ser. Note ainda que a resposta não depende de rr: o engrenamento iguala as velocidades dos dois fios, e o raio some do balanço energético.