Questão 1

Química. Termoquímica — combustão do pentano e balanço térmico isobárico.

Considere um motor de combustão interna hipotético que opera em condição de combustão completa, com a admissão fixa de 200 L200\ \mathrm{L} de ar atmosférico (à pressão de 1 bar1\ \mathrm{bar}), cuja composição é de 20%20\% oxigênio e 80%80\% nitrogênio. O combustível, pentano, pode ser injetado em quantidade ajustável. Considere também que o calor gerado na combustão é completamente transferido para os gases após a combustão e que a reação é isobárica. Sabendo que a temperatura inicial do sistema é de 300,84 K300{,}84\ \mathrm{K}, que a entalpia de combustão do pentano é de −3440 kJ mol−1-3440\ \mathrm{kJ\,mol^{-1}} e que a capacidade calorífica molar à pressão constante da mistura dos gases (ou seja, misturas contendo quantidades variáveis de COX2\ce{CO2}, HX2O\ce{H2O}, NX2\ce{N2}, OX2\ce{O2}) é igual a 40 J K−1 mol−140\ \mathrm{J\,K^{-1}\,mol^{-1}}, determine:

a) a equação química balanceada da combustão.

b) as quantidades, em mols e expressas com uma casa decimal, de OX2\ce{O2} e NX2\ce{N2} na câmara de combustão.

c) a temperatura dos gases após a combustão, na condição estequiométrica.

d) quanto deve ser alterada a quantidade de combustível, expressa na forma de porcentagem (número inteiro %), em relação à quantidade estequiométrica, para que a temperatura dos gases de combustão seja 1600,84 K1600{,}84\ \mathrm{K}, levando em consideração uma condição de economia de combustível.

Dados: R=8,31 J K−1 mol−1R = 8{,}31\ \mathrm{J\,K^{-1}\,mol^{-1}}; 1 bar=105 N m−21\ \mathrm{bar} = 10^{5}\ \mathrm{N\,m^{-2}}.

Aviso: na prova original, a banca escreveu a unidade da capacidade calorífica molar como J−1 K−1 mol−1\mathrm{J^{-1}\,K^{-1}\,mol^{-1}}, o que está errado. A unidade correta, usada nesta resolução, é J K−1 mol−1\mathrm{J\,K^{-1}\,mol^{-1}}.

Resposta

a) CX5HX12+8 OX2→5 COX2+6 HX2O\ce{C5H12 + 8 O2 -> 5 CO2 + 6 H2O}; b) nOX2=1,6 moln_{\ce{O2}} = 1{,}6\ \mathrm{mol} e nNX2=6,4 moln_{\ce{N2}} = 6{,}4\ \mathrm{mol}; c) T=2300,84 KT = 2300{,}84\ \mathrm{K}; d) a quantidade de pentano deve ser reduzida em cerca de 37%37\%, de 0,2000{,}200 para 0,127 mol0{,}127\ \mathrm{mol}

Resolução

a) Vamos balancear carbono e hidrogênio para um mol de pentano:
CX5HX12(g)+OX2(g)→5 COX2(g)+6 HX2O(g)ΔHc=−3440 kJ mol−1\ce{C5H12(g) + O2(g) -> 5 CO2(g) + 6 H2O(g)} \qquad \Delta H_c = -3440\ \mathrm{kJ\,mol^{-1}}

Note que são 16 átomos de oxigênio nos produtos. Portanto, para balancear, teremos:
CX5HX12(g)+8 OX2(g)→5 COX2(g)+6 HX2O(g)ΔHc=−3440 kJ mol−1\ce{C5H12(g) + 8 O2(g) -> 5 CO2(g) + 6 H2O(g)} \qquad \Delta H_c = -3440\ \mathrm{kJ\,mol^{-1}}

b) Usando a equação de Clapeyron, podemos calcular o número de mols total de gases admitidos:
nar=PVRT=1,0⋅105⋅0,2008,31⋅300,84=2,0⋅1042500=8,0 moln_{\text{ar}} = \frac{PV}{RT} = \frac{1{,}0\cdot 10^{5}\cdot 0{,}200}{8{,}31\cdot 300{,}84} = \frac{2{,}0\cdot 10^{4}}{2500} = 8{,}0\ \mathrm{mol}
Como sabemos que a composição do ar é 20%20\% de OX2\ce{O2} e 80%80\% de NX2\ce{N2} em volume, temos:
nOX2=0,20⋅8,0=1,6 molnNX2=0,80⋅8,0=6,4 moln_{\ce{O2}} = 0{,}20\cdot 8{,}0 = 1{,}6\ \mathrm{mol} \qquad\qquad n_{\ce{N2}} = 0{,}80\cdot 8{,}0 = 6{,}4\ \mathrm{mol}

c) Na condição estequiométrica, todo o OX2\ce{O2} é consumido. Então, podemos calcular o número de mols de pentano usando a proporção:
nCX5HX12=1,68=0,20 moln_{\ce{C5H12}} = \frac{1{,}6}{8} = 0{,}20\ \mathrm{mol}
Então, o calor liberado é:
Q=0,20⋅3440=688 kJ=6,88⋅105 JQ = 0{,}20\cdot 3440 = 688\ \mathrm{kJ} = 6{,}88\cdot 10^{5}\ \mathrm{J}
Diante disso, podemos calcular o número de mols de gases produzidos na combustão. É importante lembrar que o nitrogênio é inerte, portanto, seu número de mols se mantém inalterado.
COX2:\ce{CO2}: (5⋅0,20=1,0 mol5\cdot 0{,}20 = 1{,}0\ \mathrm{mol})
HX2O:\ce{H2O}: (6⋅0,20=1,2 mol6\cdot 0{,}20 = 1{,}2\ \mathrm{mol})
NX2\ce{N2}: (6,4 mol6{,}4\ \mathrm{mol}):

Portanto, o total de gases presentes ao final da reação é:
ngases=1,0+1,2+6,4=8,6 moln_{\text{gases}} = 1{,}0 + 1{,}2 + 6{,}4 = 8{,}6\ \mathrm{mol}
Pro fim, vamos calcular a variação de temperatura. Todo o calor liberado pela reação aquece os gases presentes ao final,
Q=ngases Cp ΔTQ = n_{\text{gases}}\,C_p\,\Delta T

Portanto:
ΔT=Qngases Cp=6,88⋅1058,6⋅40=6,88⋅105344=2000 K\Delta T = \frac{Q}{n_{\text{gases}}\,C_p} = \frac{6{,}88\cdot 10^{5}}{8{,}6\cdot 40} = \frac{6{,}88\cdot 10^{5}}{344} = 2000\ \mathrm{K}
T=300,84+2000=2300,84 KT = 300{,}84 + 2000 = 2300{,}84\ \mathrm{K}

d) A condição de economia de combustível corresponde à mistura pobre: injeta-se xx mol de pentano, com x<0,20x < 0{,}20, o oxigênio fica em excesso e a combustão continua completa. Os gases ao final são os produtos, o NX2\ce{N2} e o OX2\ce{O2} que sobrou:
nCOX2=5xnHX2O=6xnOX2=1,6−8xnNX2=6,4n_{\ce{CO2}} = 5x \qquad n_{\ce{H2O}} = 6x \qquad n_{\ce{O2}} = 1{,}6 - 8x \qquad n_{\ce{N2}} = 6{,}4

Assim, o total de gases é:
ngases=5x+6x+(1,6−8x)+6,4=8,0+3xn_{\text{gases}} = 5x + 6x + (1{,}6 - 8x) + 6{,}4 = 8{,}0 + 3x
A elevação de temperatura pedida é ΔT=1600,84−300,84=1300 K\Delta T = 1600{,}84 - 300{,}84 = 1300\ \mathrm{K}. Balanço térmico, em joules:
3,44⋅106 x=(8,0+3x)⋅40⋅13003{,}44\cdot 10^{6}\,x = (8{,}0 + 3x)\cdot 40\cdot 1300
3,44⋅106 x=4,16⋅105+1,56⋅105 x3{,}44\cdot 10^{6}\,x = 4{,}16\cdot 10^{5} + 1{,}56\cdot 10^{5}\,x
3,284⋅106 x=4,16⋅105⟹x=0,1267 mol3{,}284\cdot 10^{6}\,x = 4{,}16\cdot 10^{5} \quad\Longrightarrow\quad x = 0{,}1267\ \mathrm{mol}
Comparando com a quantidade estequiométrica:
x0,20=0,12670,20=0,633⟹reduc¸a˜o de (1−0,633)⋅100%=36,7%≈37%\frac{x}{0{,}20} = \frac{0{,}1267}{0{,}20} = 0{,}633 \quad\Longrightarrow\quad \text{redução de } (1 - 0{,}633)\cdot 100\% = 36{,}7\% \approx 37\%

Resposta: a) CX5HX12+8 OX2→5 COX2+6 HX2O\ce{C5H12 + 8 O2 -> 5 CO2 + 6 H2O}; b) nOX2=1,6 moln_{\ce{O2}} = 1{,}6\ \mathrm{mol} e nNX2=6,4 moln_{\ce{N2}} = 6{,}4\ \mathrm{mol}; c) T=2300,84 KT = 2300{,}84\ \mathrm{K}; d) a quantidade de pentano deve ser reduzida em cerca de 37%37\%.